O Bhagavad Gita – Introdução

                        O Bhagavad-Gîtâ, ou Poema do Senhor, é um poema composto por setecentas estrofes divididas em dezoito capítulos, lições ou cantos que está incluído no sexto livro, Bishma Parva, da epopeia, Mahabharata (Grande Índia). O poema conta a história dos descendentes do Rei Bharata, os Pandavas e os Kauravas, primos que entram em disputa sobre o reino e que acaba na guerra cataclísmica de Kurukshetra.

O autor do Mahabharata é dado como sendo Vyasa, um grande Sábio iluminado, não se sabendo ao certo em que época viveu, pelo que se torna difícil datar a epopeia. A hipótese mais aceite é a do século III AEC embora alguns estudiosos considerem que tenha sido no período do quinto ao quarto século AEC.[1]

Paramahansa Yogananda escreve no livro The Yoga of the Bhagavad-Gîtâ que, embora o Mahabharata seja baseado em factos históricos:

a sua apresentação poética na epopeia foi elaborada conveniente e significativamente (e soberbamente condensada no segmento do Bhagavad-Gîtâ) com o propósito de apresentar a essencia do Santana Dharma, a Religião Eterna, da Índia[2]

De facto, o Bhagavad-Gîtâ no Hinduismo é considerado como sendo a escritura mais importante e a essência da sua crença. Os ensinamentos nele contidos são considerados essencialmente panenteístas (Deus presente em tudo). A décima lição, o Yoga das Manifestações do Poder Divino, é sobre este conceito.

O Bhagavad-Gîtâ é o diálogo entre Krishna (avatar de Vishnu, ou Brâman encarnado) e Arjuna, o seu discípulo e amigo, antes do início da grande batalha entre os dois clãs, os Pandavas (ao qual pertence Arjuna) e os Kauravas. Arjuna, um príncipe da casta Khastria (guerreiro), está em grande conflito consigo próprio, no meio do campo de batalha, porque para a ganhar terá que matar aqueles que são os seus parentes, amigos e antigos mestres.

O seu tormento parece que lhe faz esquecer que é um guerreiro, e como tal, devia entrar na batalha e não abandoná-la como antes quer fazer. Krishna terá que lhe explicar porque razão não pode abandonar o campo da batalha.

Os eventos que antecedem esta grande batalha, são a razão pela qual, como Krishna explica, Arjuna não tem outra escolha e terá que se levantar e entrar em campo.

Após a morte do Rei Pandu – pai de Yudhisthira, Arjuna, Bhima, Nakula e Sahadeva – o seu irmão cego, Dhritarashtra, ascende ao trono no qual permanece até à sua velhice.  Chegando a altura de ceder o trono, Dhritarashtra escolhe o filho mais velho de Pandu, Yudhisthira, que é a personificação da virtude e pureza, e não o seu próprio filho, Duryodhana, que é considerado um homem corrupto e malévico, carecterísticas impróprias para ser o líder dum reino cuja fundação assenta nos princípios da justiça e integridade.

Através de esquemas manhosos, Duryodhana consegue apoderar-se dos territórios e sobe ao trono, tentando aniquilar os cinco irmãos Pandava. Krishna, numa tentativa de reconciliação entre os Pandavas e os Kauravas, sugere a divisão do reino com somente cinco aldeias a serem entregues aos Pandavas. Duryodhana recusa, tornando a guerra inevitável, e, com aceitação mútua, esta teria que ter lugar em nome de justiça e integridade.

Krishna, com imparcialidade, oferece a escolha do seu excército ou ele próprio na batalha a cada um dos clãs. Duryodhana escolhe o exército para se juntar ao seu já formidável exército, que inclui os seus noventa e nove irmãos, e os mestres e amigos dos dois clãs.  Assim, Krishna junta-se aos Pandavas, não como guerreiro mas como condutor do carro de  Arjuna, e é aqui que começa o longo diálogo.[3]/[4]

Contudo, não nos devemos ficar simplesmente por um relato histórico que anticipa uma guerra cataclísmica e horrenda. A imagem de Krishna como cocheiro, a guiar um coche puxado por cavalos, e Arjuna como passageiro, tem sido utilizada pelos sábios antigos de Yoga como uma alegoria do homem, para o ajudar e treina-lo na sua procura para o autoconhecimento.

Simbólicamente, as estradas onde passa o coche representam os nossos desejos, correntes e passados, dos quais temos que nos libertar. Os dez cavalos são os dez sentidos (indriyas), através dos quais nos relacionamos com o mundo externo pela percepção e a ação. As rédeas são a mente, através da qual os sentidos recebem as suas instruções para agir e perceber. O chocheiro é o maior intelecto (buddhi), que é suposto ser o doador sábio de instuções para a mente. O passageiro é o Eu, o Atman, o centro puro de consciência, que é sempre a testemunha neutra. O coche em si é o corpo físico, o instrumento através do qual, o eu, o intelecto, a mente e os sentidos operam.

No livro O Poema do Senhor – Bhagavad-Guitá, António Barahona explica que Krishna e Arjuna:

representam, respectivamente, o Eu (Si) e o eu (ente vital), a personalidade e individualidade, Átma incondicionado e djivátma. O ensinamento transmitido por Krixna a Ardjuna é, do ponto de vista interior, a intuição intelectual supra-racional, mercê da qual o Eu (Si) se comunica ao eu (ente vital), se este se encontra qualificado e apto. [5]

Sri Aurobindo, no livro Bhagavad-Gîtâ and its Message, escreve:

[…] o Bhagavad-Gîtâ, literalmente “O Cântico Divino”, assim chamado porque é pronunciado por Krishna, a divindade encarnada, e porque ensina ao homem como sair da sua consciência humana vulgar até à consciência divina superior, deste modo realizando o Reino do Céu na terra e no corpo humano.” [6]

Paramahansa Yogananda escreve ainda que no Bhagavad-Gîtâ, Vyasa conseguiu – através de metáforas e alegorias – combinar factos históricos com verdades psicológicas e espirituais [7] para apresentar “as batalhas internas que devem ser disputados tanto pelo homem materialista como pelo homem espiritual. [8]

Começamos assim a perceber que o objectivo do Bhagavad-Gîtâ é o de nos tirar da ignorância, mostrando-nos o caminho para saírmos da transmigração – o ciclo de nascimento, morte e renascimento (samsara).

Ao longo dos dezoito capítulos, Krishna tece este caminho ensinando a Arjuna os Yogas de Karma, Jnâna, Râja e Bhakti, e criando no Bhagavad-Gîtâ um texto que mostra a razão da nossa existência, a imortalidade do átma (alma), e a nossa ligação eterna com Brâman.

[1]FEUERSTEIN, GEORG; A Tradição do Yoga; São Paulo, Brasil; Editora Pensamento-Cultrix Ltda, 1998; p.243

[2]YOGANANDA, PARAMAHANSA; The Yoga of the Bhagavad-Gîtâ; Los Angeles, California,USA; Self-Realization Fellowship, 2007; p.5  “[…]their poetic presentation in the epic has been arranged conveniently and meaningfully (and wonderfully condensed in the Bhagavad-Gîtâ portion) for the primary purpose of setting forth the essence of India’s Sanatana Dharma, Eternal Religion.”               

[3]AUROBINDO, SRI; Bhagavad-Gîtâ and its Message; Twin Lakes, WI, USA; Lotus Press, 2º edição 2001;pp.292 e 293.

[4]BARAHONA, ANTÓNIO; Poema do Senhor, Bhagavad-Guitá; Lisboa; Relógio D’Àgua Editores, 1996;pp.22 e 23.

[5]BARAHONA, ANTÓNIO; Poema do Senhor, Bhagavad-Guitá; Lisboa; Relógio D’Àgua Editores, 1996; p.24

[6]AUROBINDO, SRI; Bhagavad-Gîtâ and its Message; Twin Lakes, WI, USA; Lotus Press, 2º edição 2001; p.293. “[…]the Bhagavad-Gita, literally “the Divine song”, so called because it is delivered by Krishna, the incarnate Godhead, and because it teaches man how to rise out of his ordinary human consciousness to a higher divine consciousness, thus realizing the Kingdom of Heaven on earth and in the human body.”

[7]YOGANANDA, PARAMAHANSA; The Yoga of the Bhagavad-Gîtâ;Los Angeles, California,USA; Self-Realization Fellowship, 2007; p.5 “[…]historical facts with ppsycholigical and spiritual truths.”

[8]YOGANANDA, PARAMAHANSA; The Yoga of the Bhagavad-Gîtâ;Los Angeles, California,USA; Self-Realization Fellowship, 2007; p.5 “[…]tumultuous inner battles that must be waged by both the material and the spiritual man.”

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6 pensamentos sobre “O Bhagavad Gita – Introdução

    1. Tive uma professora que tinha um conhecimento profundo sobre os textos de yoga e que os soube partilhar de um modo cativante. Estou para sempre agradecida à Professora Ana.

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